Minhas lembranças como artista vêm de muitos anos atrás. Aos cinco anos de idade passava horas a fio desenhando, colorindo coisas e aos doze já fazia com facilidade reproduções de paisagens, objetos ,criava personagens e inventava histórias. Meu interesse, no entanto, sempre foi direcionado para o traçado próprio, uma espécie de linguagem oculta e solitária, construída às avessas, uma reinvenção constante do meu próprio vocabulário.

Sou e sempre fui um artista do meu próprio dom. Meu didatismo é a perenidade das coisas, a (de)composição da minha própria existência. Apesar do uso corriqueiro da aquarela e do guache, até os 17 anos minha paixão eram as sombras, provocadas pelo deslizar do grafite nas superfícies brancas, o atrito do lápis no papel ora mais forte ora mais fraco ; era para esse caminho que a minha intuição era guiada. As cores ainda iriam esperar um pouco mais.

Tanto na adolescência quanto já na Faculdade de Arquitetura da UFF minhas referências foram muitas. Professores, artistas plásticos e algumas pessoas com as quais convivi, foram muito importantes na construção dos meus alicerces estéticos sobre os quais ergui e continuo erguendo minha identidade e com a qual procuro me comunicar com o mundo.

Aos 20 anos, dentre as muitas escolhas que fazemos constantemente na vida e movido pelas circunstâncias que você não escolhe, eu, então, escolhi utilizar o meu dom na criação e replicação de produtos, ladrilhos em relevos, utilizados para o revestimento de paredes (www.rerthy.com.br). Enveredei pelas esculturas, pelas luzes e sombras que via agora, reaparecem nas superfícies e texturas dos modelos que criava e passei a perceber a proximidade que existia entre eles e os efeitos provocados pelos desenhos em grafite.

Minhas andanças pelo mundo me aproximaram ainda mais de quem eu sou.

Sou um artista, trabalho com a subjetividade , matéria-prima que transformo em realidade e o passar dos anos alimenta a ambigüidade dessa arte através dos meus sentidos. As cores reapareceram para mim com mais intensidade já na maturidade e embora eu sinta e ache que agora tenha muita intimidade com elas vou me surpreendendo com o que encontro a cada vez que pinto.

Hoje, pintar é o que eu mais gosto de fazer e pensando sobre isso , lembro então de uma frase que ouvi há muito tempo atrás:

“Tome cuidado com o que você sabe fazer de melhor porque será isso, certamente,o que você fará pelo resto de sua vida.”